O hub tecnológico do Atlântico. Por Filipe Batista

quinta, 08 março 2018 15:57

Esta semana participei num seminário sobre Regulação na Era Digital na Cidade da Praia, em Cabo Verde, que contou com a presença de representantes de todos os países-membros da CPLP e, naturalmente, com autoridades de Cabo Verde.

O tema não podia ser mais atual e alinhado com o trabalho que os reguladores das comunicações da CPLP, mandatados pelos ministros das Comunicações, estão a realizar no quadro da Agenda Digital para a CPLP.

Os desafios da digitalização da economia são enormes e, independentemente dos esforços que em conjunto, estão a desenvolver para se concertarem em torno de uma estratégia digital conjunta, os membros da CPLP, individualmente, estão atentos e têm em prática diversas iniciativas e estratégias próprias com vista a tirar partido do manancial de oportunidades que a mesma digitalização oferece.

Cabo Verde é um dos países que, não sendo surpreendente, está já a preparar-se para a revolução digital que presenciamos, consciente das vantagens que ela pode trazer para um país de pequena dimensão e onde o principal recurso são as pessoas. Não se pode dizer que me surpreenda com a capacidade de Cabo Verde de delinear estratégias, mas o que testemunhei nos diferentes encontros de trabalho em que participei com as autoridades deste país superou as minhas convicções.

Tive a oportunidade de conhecer o vice-primeiro-ministro e ministro das Finanças, Olavo Correia, e o secretário de Estado para a Inovação e Formação Profissional, Pedro Lopes, dos quais recebi uma verdadeira lição de visão e posicionamento estratégico.

O principal desafio que Cabo Verde assumiu e pretende olhar de frente nos próximos anos é o de tornar o país um hub tecnológico, ao que eu acrescentei do Atlântico. Esta é a visão do país e a estratégia de implementação assenta em dois pressupostos simples: as pessoas e as tecnologias. 

A taxa de alfabetismo em Cabo Verde anda na casa dos 90% e, muito embora a taxa de frequência do ensino superior esteja abaixo dos 10%, existe já uma pressão significativa de alunos do secundário que atinge cerca de 40% da população jovem.

Para tirar partido deste recurso e potenciar o seu desenvolvimento, o governo aposta claramente no desenvolvimento tecnológico e na criação das condições necessárias para que o potencial humano possa desenvolver-se e contribuir para o desenvolvimento do país.

O ponto de partida desta aposta está precisamente na base de qualquer desenvolvimento tecnológico: nas infraestruturas de comunicações.

Com um setor totalmente liberalizado e em concorrência (desde 2006), o foco da ação governativa (que se iniciou ainda com o governo anterior, do PAIGC) centrou-se na criação de condições internas que permitem que, hoje, Cabo Verde tenha um backbone de comunicações eletrónicas moderno e eficiente – quer em terra quer, promovendo a coesão nacional, entre ilhas, através de anéis de fibra ótica. A par deste esforço foram feitos investimentos consideráveis no desenvolvimento de um data center e de um polo tecnológico, criando assim um novo segmento de oportunidades para o desenvolvimento de competências digitais, para pessoas e empresas. Assegurada a rede interna de comunicações, a hora é agora de fazer chegar o mundo até Cabo Verde. Na região da CEDEAO, Cabo Verde colocou na agenda a criação de um cabo submarino (Amílcar Cabral) ligando Cabo Verde e Guiné-Bissau. Por outro lado, assegurou também a passagem do Cabo Ellalink (que ligará Brasil e Portugal) pelas suas águas territoriais, ao qual se ligará também. Cabo Verde chama para si o lançamento da primeira pedra para a construção da plataforma atlântica de cabos submarinos dos países de língua portuguesa, na qual poderá vir a inserir-se também o sistema já em instalação entre Angola e o Brasil.

Cabo Verde percebe claramente que, para ser um hub tecnológico, precisa de assegurar conectividade internacional e, não obstante o seu tamanho, desenvolveu uma estratégia que, a breve trecho, poderá torná-lo uma espécie de Singapura da África ocidental. Os desafios continuarão a ser muitos mas, não tenho dúvidas, serão ultrapassados pela perseverança das suas gentes e a visão dos seus governantes.

 

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